Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 

Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica 
Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade 


A Clínica e seu Duplo: experimentações em clínica psicanalítica 


Projeto de Doutorado: 

Rafael Domingues Adaime 

Outubro de 2011 
São Paulo 


Apresentação: 

Este projeto de doutorado se propõe como campo de estudos público, a ser compartilhado com outros alunos, acompanhado e analisado pelo corpo docente do Núcleo em seus grupos de orientação e investido/sustentado pela orientação da professora Suely Rolnik, a quem dirijo minha candidatura. Por meio dele, junto a este Programa de Pós-Graduação, proponho a realização desta pesquisa experimental em clínica psicanalítica, com a intenção de que a realização dos estudos de doutorado no Núcleo de Subjetividade funcione como uma de espécie campo experimental de uma pesquisa operando em uma clínica-estúdio. Em outras palavras, este projeto se coloca como um duplo em relação a esta clínica-estúdio, seu meio de expressão e sustentação, de reflexão e criação. 

Tese: 

Toda clínica psicanalítica possui um fundo experimental, no sentido em que seu trabalho consiste em sustentar a criação de um caminho; nesta perspectiva, que cada clínica tem seu programa singular, conforme as escolas, influências e singularidades de cada analista e de cada situação. Orientado por certas regras da prudência e da ética, e de acordo com os princípios de uma análise padrão, seria possível sustentar uma clínica psicanalítica apoiada pela instalação experimental de outros dispositivos no setting. 

Propósitos: 
[o projeto como um duplo da clínica] 

Nesse sentido, pretende-se realizar uma série de experimentações em clínica psicanalítica; estudar o tema experimentação e psicanálise; pesquisar e problematizar a utilização de procedimentos experimentais; trabalhar sobre a noção de duplo – psicanálise, cultura, corpo sem órgãos etc. 

Metodologia: 

Inicialmente pretende-se utilizar como “metodologia” a pesquisa psicanalítica (Sigmund Freud), a cartografia esquizoanalítica (Gilles Deleuze-Félix Guattari), a análise institucional (Félix Guattari, René Lourau e Georges Lapassade) e nesse arranjo metodológico contar com o apoio dos cadernos de notas, diários de clínica, agendas de clínica, funcionando como local para todo o tipo de registro dos processos conduzidos e vividos. 

Cronograma de atividades de pesquisa: 

2012 2013 2014 
Candidatura à bolsa Projeto de vídeo experimental 
- programa Fale consigo: apenas com mulheres, sobre o tema da gravidez e relação com bebês. 


Janeiro: Bolsa sanduíche na Universidade do México 
Apresentação do projeto atualizado nos grupos de orientação; apresentação da clínica. 

Curso do Hospital São Luiz sobre relação mãe- bebê. 
Abril: retorno. 
Estudo da noção de análise padrão, de Winnicott. 
Definição parcial de setting. 
Curso sobre drogas na Unifesp.
Projeto Quixote; Proad 
Apresentação de texto sobre pesquisa relacionando xamanismo do peiote com a psicanálise. 
Estudo dos artigos sobre a técnica, de Freud. 
Transcrições e edição do Fale consigo 
Novembro: qualificação. 
Estudo dos quatro princípios fundamentais da psicanálise, de Lacan.

Acompanhamento do seminário de João Perci. 


2º semestre. 
Cursos do Núcleo de Psicanálise: Alfredo Naffah, Luis Claudio, Gilberto Safra, Renato Mezan. 
Preparação de material que deverá acompanhar o texto da tese (desenhos, vídeos).
Apresentação de textos sobre as experimentações clínicas nos grupos de orientação.
Apresentação de texto sobre experimentação e psicanálise. 
Estudos de inglês, francês. Estudos de inglês, francês, espanhol. 
Estudos de espanhol. 
Coordenação de um grupo de estudos e pesquisas sobre clínica experimental. 
Depósito da tese: março.


2015 


A Clínica 

[componentes na configuração de um espaço] 

A clínica ocupa a sala do apartamento onde eu moro numa pequena Rua da Barra Funda. 
O prédio, estilo Art Deco, com sacadas e venezianas verdes, têm três pavimentos; o 
primeiro é o térreo, ocupado por duas empresas, uma em cada lado da porta de entrada 
que dá acesso aos oito apartamentos. O meu é o de numero um, fica no primeiro andar e 
possui um pátio interno que lhe dá um jeito de casa. Na entrada tem uma pequena ante-
sala: um vaso com Espadas de São Jorge, na parede uma cópia de A Tentação de Sto. 
Antônio, de Hieronimus Bosch e duas portas, uma que leva ao pátio e fica fechada e a 
outra que dá acesso a clínica. 

A sala, onde fica a clínica, tem 16m² (3,5m por 4,6m), possuiu duas poltronas Berger, 
um divã (futon sobre tatame) de 2m, encostado lateralmente em uma parede, além de 
uma rede tamanho casal; são os lugares onde se pode sentar ou deitar; as posições estáveis 
na configuração atual do espaço. Uma das poltronas é a do analista .o seu ponto 
favorável1 .em torno dela acontece o trabalho de sustentação do setting2. O paciente 
pode escolher entre os três lugares restantes onde irá trabalhar a sua análise. A rede é 
confortável e grande, com três metros e oitenta centímetros de comprimento por um metro 
e sessenta e cinco centímetros de largura; sobre o divã-futon pode-se escolher acomodar 
a cabeça em dois travesseiros, um Suki3 e um Makura de Sobá4, sendo que este, 
por ser maleável, também pode ser usado na rede. Há um tapete de chenili sobre o futon, 
para protegê-lo e permitir que se possa usá-lo com calçados. Entre o divã e a parede 
tem um par de buchas vegetal, uma média e outra longa; perto delas, mais para dentro 
do futon, perto da mão esquerda do paciente deitado, estão uma bola de borracha roxa, 
pequena e macia, um novelo de linha de crochê verde escuro e um pequeno cristal trans


1“[...] um ponto significava um lugar em que a pessoa se sentisse naturalmente feliz e forte. Mostrou o 
lugar em que estava sentado e disse que era o ponto dele [...] O simples ato de sentar no ponto da gente 
criava uma força superior; por outro lado [um lugar desfavorável] enfraquecia a pessoa e podia até 
provocar a sua morte.” Carlos Castañeda. A Erva do Diabo. São Paulo: Círculo do livro, s/d, p. 35-40. 

2Entendido como configuração, instalação, como campo ritual e programa. Uma definição parcial de 
setting será desenvolvida mais detalhadamente no primeiro semestre de pesquisa. 

3Travesseiro/futon rígido, triangular que acomoda firmemente a cabeça na altura da nuca. 

4Quer dizer travesseiro em japonês, no caso um travesseiro tipo saca, macio, revestido de palha e 
recheado com macarrão Sobá 


lúcido e tosco – instalados ali para funcionarem como objetos relacionais; inseridos no 
divã um de cada vez, ao longo de algumas semanas. No teto, perto da janela, sobre os 
pés do paciente, está pendurado por um fio o filtro de sonhos, que gira lentamente em 
frente ao campo de vista de quem se deita no divã. Entre a poltrona do paciente e os pés 
do futon há uma palmeira verde escuro crescendo em um vaso de cerâmica. 

O futon foi escolhido como divã para dar uma acomodação firme ao corpo em um espaço 
suficiente para uma pessoa mais os objetos relacionais; (além dos já citados; almofadas, 
estetoscópio, tampa de ouvido... são possibilidades ., mas sem deixar muito cheio); 
inspirações das pesquisas de Suely Rolnik sobre a Estruturação do Self, de Lygia Clark: 
trabalho de experimentação corporal com objetos relacionais5 (clínica/arte). 

Mas como introduzir uma rede na clínica? A rede era um elemento estranho, não havia 
referências, sem dúvida exigiria um pouco mais de trabalho e atenção para a sua instalação 
(setembro de 2010) e acompanhamento. Inventada como dispositivo6 clínico a partir 
de algumas ressonâncias com a ideia de holding7 , de Donald W. Winnicott; também poderia 
vir a ser, algum dia, utilizada para outras experimentações corporais: cobrir alguém 
com macela seca, como na banheira de Marina Abramovic; utilizar almofadas de 
pesos diferentes, como as de Lygia Clark; ou simplesmente funcionar alternativamente 
ao divã e a poltrona, como lugar para sentar ou deitar: já que uma rede tem em si mesma 
os atributos que funcionam diretamente no corpo. Neste primeiro ano ela tem sido utilizada 
apenas pelos pacientes; o analista se limitou a anotar os efeitos que às vezes percebe-
se em cada análise: “é como um casulo”, “a rede a essa hora? vou dormir”, “embalado 
como um bebê”. 

Entretanto, houve um caso, logo após a instalação da rede, em que convidei uma paciente 
que há tempo está comigo, no final da sessão, para experimentá-la. O exemplo é significativo 
de certas qualidades do dispositivo e de como ele foi pensado e instalado na 
clínica. 

5Rafael D. Adaime. Um corpo para viajar. In: Clinica experimental: programa para maquinas desejantes. 
Dissertação de mestrado. PUC-SP, 2008. 

6Um dispositivo é uma máquina ou uma peça, ou conjunto delas, ou um conjunto de ações e até de regras 
destinado a determinado fim; por isso, um dispositivo é sempre um dispositivo de algo, para algo .seja 
este fim alcançado ou não .; segundo o principio básico de qualquer experimentação: a indeterminação 
dos seus efeitos, que precisam ser acolhidos/cuidados com atenção. 

7Holding: sustentação; apoio; colo; berço. 


Indo até a rede, a jovem perguntou se tinha sido eu mesmo que havia instalado a rede 
nas paredes; respondi que sim. Então ela deitou no meio da rede e ficou ali parada, quieta, 
parecendo rígida. Esperei um tempo e perguntei como estava... “— Sabe o que é?” – 
disse ela – “...eu tenho medo de rede... tenho medo de cair.” Então ela lentamente levantou-
se, saiu da rede e foi embora; e até hoje continua a sua análise no divã, usando o 
Makuri de Sobá sob a cabeça. Aí, o que temos, penso eu, é o seguinte: uma paciente esquizo8 
com medo de cair do holding, do “colo” que o setting faz funcionar através da 
transferência e da receptividade de um analista suficientemente bom9, a sustentação. 
Uma figura com medo, muito provavelmente de cair infinitamente, pela eternidade, mas 
que na realidade está deitada há apenas um palmo do chão. Por isso ela me perguntara 
se havia sido eu o instalador dos ganchos; ela queria uma referência para calcular o risco 
de cair; se a instalação era suficientemente confiável. Como deixar de lado o campo 
experimental instalado pelo trabalho na transferência? A partir dessa experiência, passei 
a adotar uma posição mais receptiva, adaptável, flexível, em busca de um território mais 
seguro para o trabalho terapêutico. 

Era preciso que a rede fosse segura o suficiente para suportar a experiência de se deixar 
soltar confiavelmente, entregar seu corpo ela. O detalhe é que a rede foi escolhida e instalada 
já esperando por algum tipo de efeito como este. Era preciso escolher uma que 
fosse grande e segura o suficiente para suportar a experiência de se deixar soltar, entregar-
se a ela; o tamanho grande funcionaria, também, para dar segurança, permitir movimentações 
e a introdução de objetos; a altura dos ganchos e distância entre eles foram 
calculados para que o corpo, deitado ou sentado, ficasse há cerca de um palmo do chão, 
para dar uma maior sensação de segurança em caso de “fantasias” de queda – o que acabou 
acontecendo. 

Em cada caso, cada setting vai ganhando a sua própria diagramação, seus programa parciais 
e singulares. A prática de experimentações "passivas" em psicanálise passa pela 
necessidade de que o próprio paciente possa desejar entrar em relação com os objetos e 
móveis instalados no espaço. Os paciente adultos geralmente criam programas habituais: 
chega, tira o sapato, deita na rede sem ser visto por mim e começa a falar até o fim. 
Chega, deita no divã, escolhe seu travesseiro e começa a falar; às vezes parece que na 

8Definição a ser estudada e situada ao longo da pesquisa. 

9Relativo à noção de mãe suficientemente boa e de espaço potencial, de Donald W. Winnicott. 


rede o silêncio inicial torna-se mais raro; mas pode ser apenas uma característica particular 
deste paciente. Chega, senta na poltrona... etc. E, à vezes, pode acontecer algo surpreendente; 
uma mudança de lugar, de objeto preferido, um novo campo experimental – 
situações sutis e muito delicadas que interferem na transferência e na resistência, mas 
que não podemos antever de que modo (experimentação, ver nota 6). Minha ideia de clínica-
estúdio tem a ver não só com ter todos os objetos à disposição no mesmo espaço, 
mas com ter os lugares para a análise padrão garantidos e estáveis; muito bem delimitados; 
assim como os acordos claros e bem definidos – frequência, horário, valor, forma 
de pagamento, duração da sessão etc.10 

Neste contexto, vivo acompanhado de problemas: 

Seria possível introduzir novos elementos, novos dispositivos, além das poltronas e do 
divã habituais, mantendo, ainda assim, a essência do trabalho psicanalítico? Como inserir 
rede, objetos relacionais, mesa de desenhar, televisão, câmera etc., sem desestabilizar 

o propósito da análise, que é, na minha visão, sustentar a criação de caminhos? E por 
que, com que propósitos, segundo quais critérios? Apenas para tentar amplificar o campo 
potencial da escuta? Ou quem sabe para procurar amplificar o campo experimental 
disponível ao paciente, mas sem ferir com isso preceitos éticos indispensáveis a qualquer 
clínica do desejo? 
E por isso o analista diz: 'Adapte-se!' Não quer dizer, como alguns gostam de pensar: 
adapte-se a este putrefato estado das coisas! Ele quer dizer: adapte-se à vida! 
Torne-se um adepto! Esse é o ajustamento supremo .tornar-se um adepto. 

Henry Miller. Sexus 

* * * 

10“Em alguns casos o setting e a manutenção dele são tão importantes quando a maneira pela qual se liga 
ao material. Em alguns pacientes, com um certo tipo de diagnóstico, a provisão e a manutenção do setting 
são mais importantes que o trabalho interpretativo.” Donald W. Winnicott. Explorações psicanalíticas. 
Porto Alegre: Artmed, 1994, p. 77. 


[Cuidado. Ambiente. Espaço Potencial. Prudência. CsO.] 


Alegria não tinha eu sabido nunca o que era, nunca na minha vida eu tinha tido sensação 
que não fosse de angústia ou irremissível desespero; não sabia de outro estado 
que não fosse esta dor fendilhada que todas as noites me perseguia. 

Antonin Artaud – A Dança do Peiote 

Mas por que tantos cuidados? A prudência como velha donzela cortejada pela impotência11 
ou como uma arte das doses12? Desejar uma clínica ampliada, configurada entre o 
setting psicanalítico padrão e o estúdio13 implicaria em ter de inventar um meio de funcionamento 
preciso, que utilize apenas o mínimo necessário para uma análise padrão 
como sustentação do ambiente clínico, a partir do qual se pudesse caminhar no sentido 
de uma boa sustentação14. Foram meses, na verdade, quase dois anos, até que a clínica 
na sala principal, com a rede e o divã, desse a sensação de ser mais confiável e segura como 
uma arca em meio ao dilúvio, ou uma ilha no pacífico. Naquele período, pacientes 
novos não permaneceram; entendo que eles não tiveram acolhida confiável, pois, até 
aquele momento, os móveis e o próprio analista não haviam encontrado os seus pontos 
favoráveis. 
Então, qual o mínimo necessário para que uma clínica psicanalítica funcione? Estudar a 
noção de análise padrão para Donald W. Winnicott seria um dos pontos relevantes nesta 
proposta: 

Sempre me adapto um pouco às expectativas do indivíduo, de início. 
[...] Ainda assim me mantenho manobrando no sentido de uma análise 
padrão. O que devo tentar conceituar aqui é o significado para mim da 
expressão análise padrão [...]. Em análise se pergunta: quanto se deve 
fazer? Em contrapartida, na minha clínica o lema é: quão pouco é necessário 
ser feito?15 

Há aí algo semelhante a uma espécie de minimalismo psicanalítico: Winnicott e o devir


11 William Blake. Provérbios do Inferno. In: O casamento do céu e do inferno. Porto Alegre: L&PM, 

2007. P 19. 
12 Deleuze; Guattari. Mil Platôs 3. São Paulo: Ed. 34, 1996, p. 22. 
13Dicionário Houaiss. Verbete: ateliê; estúdio de cinema, tevê e vídeo; gabinete de trabalho – sala, 
geralmente afastada do restante dos cômodos da casa, destinada ao trabalho. 

14Ver Donald W. Winnicott. 

15Donald W. Winnicott. Os objetivos do tratamento psicanalítico. In: O Ambiente e os processos de 
maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983, p. 152. 


imperceptível16 do analista. Ocorreu-me, a partir de três sonhos que tive com o meu próprio 
analista, algo que vem conduzindo as decisões que venho tomando nesse novo período 
de mutações que a clínica e o analista deverão passar. A posição do analista no setting, 
sua presença, sua possibilidade de ser, aos poucos, utilizado e incorporado pelo paciente, 
ficaram claros quando, depois do terceiro sonho, me dei conta de que o analista 
estava sempre no mesmo lugar enquanto em mim os devires variaram: criança, mulher, 
guerreiro etc: a análise como uma viagem intensiva e o analista conduzindo a análise, 
não o desejo, como diria Lacan. Cada análise com os seus programas, as suas singularidades 
quase imperceptíveis. É isto que me interessa pensar... De que modo um analista 
inventa o seu setting, seus programas e acordos? Pensando e experimentando a sua clínica 
entre tantas clínicas? Do setting à instalação, da escuta à percepção, das interpretações 
às experimentações, da história pessoal ao esquecimento, do escravo ao guerreiro são 
estes os caminhos da análise17 . 

O próximo passo deste projeto de clínica é mudar para um uma sala maior, com cerca de 
32m², onde o propósito de uma clínica-estúdio poderia se ampliar. Haveria espaço, por 
exemplo, para a introdução do dispositivo jogo do rabisco. Uma mesa sobre a qual estão 
folhas para desenho, dois lápis e um apontador; com um programa diferente do inventado 
por Winnicott: experimentação clínica que ocorria entre o psicoterapeuta e o paciente 
criança: um dos dois faz um primeiro traço no papel e o outro complementa o desenho e 
assim sucessivamente18. Fiz uma pequena modificação no programa de Winnicot não 
parando o desenho depois de dois rabiscos, deixando, desse modo, o desenho produzir-
se extensivamente pelo papel, em sessões que duravam cerca de meia hora, sempre cada 
um trabalhando na sua vez, pelo tempo que quisesse, alternadamente. Percebia-se, além 
do conteúdo no papel, uma intensa experimentação da transferência explicitada pelo jogar. 


Haveria ainda espaço para o Fale Consigo, dispositivo clínico realmente ligado à ideia 
de estúdio de vídeo .criado em 2007 a partir da queixa de um paciente .que envolvia 

16O analista engendra pelo menos quatro tipo de devires: criança (brincar, experimentar, 
espontaneidade); mulher (receptividade, acolhimento, ampliação do corpo, gestação de um outro); 
animal/guerreiro (à espreita); imperceptível (quanto menos, mais). 

17Como no caso de Michael Balint e suas três “áreas da mente” . narcísica, edipiana e criadora . três 
programas de desejo em que o último diz da possibilidade de se ligar a qualquer coisa, livres dos modos 
de captura narcísico e edípico. M. Balint. A Falha Básica. Porto Alegre: Artmed, 1993. 

18 Donald W. Winnicott. O Jogo do rabisco. In: Explorações Psicanalíticas. Porto Alegre: Artmed, 1994, 

p. 230. 

a experimentação da fala no sentido de poder reinventá-la. O Fale Consigo é uma experiência 
de autorretrato em vídeo, que funciona com uma câmera de vídeo em um tripé, 
um televisor na frente da poltrona19. O retratado (paciente ou não) senta-se na poltrona a 
um metro do televisor. Um fone de ouvido ligado na câmera é conectado aos seus ouvidos, 
para que ele tenha retorno de áudio. O analista (se for paciente), ou acompanhante 
(se não for paciente), fica fora do campo de visão, de modo que o participante só vê o 
próprio rosto. O analista imperceptível torna-se apenas um motivo para o outro falar; 
mais do que um interlocutor direto, um entrevistador. Desse modo, a figura pode ficar 
mais à vontade, mais sozinha diante da sua imagem. 

Desta experimentação de rosto, expressividade, voz etc. seguem algumas falas exemplares 
de efeitos colhidas das primeiras experimentações de fale consigo na clínica, em 
200720: “Estou chocado! As camadas de percepções que eu invento... como falo rápido... 
como gaguejo... desde pequeno falam que eu falo muito rápido e eu nunca dei bola pra 
isso... como abstraio meu pensamento... agora não sei o que eu tava querendo dizer naquela 
hora... em algumas partes eu não reconhecia a mim mesmo... algumas frases achei 
mais sinceras, outras mais racionalizadas de uma maneira formal, parecia que eu não estava 
falando nada... como eu movimento as mãos, não paro de tocar o meu rosto... também 
reparei na tensão dos músculos de meu rosto, sinto que estou falando mais solto 
agora... em alguns momentos, assistindo ao vídeo, eu não consegui entender que palavra 
eu estava dizendo. Eu não posso deixar isso tudo ser tão banal, ficar por isso mesmo, eu 
preciso começar a articular um nova invenção de fala. Restaurou um percepção do meu 
Eu que estava perdida. São coisas de mim que eu nunca tinha visto” (sic). 

Portanto, um dispositivo, como já definimos, pode ser utilizado de maneiras muito diversificadas, 
sendo que ele só funciona se acoplado a algo - a uma outra máquina ou a 
um propósito específico; eles ganham ou provocam uma variação de sentidos conforme 
a variação das suas conexões com os outros. Para Deleuze e Guattari, um programa é o 

19Instalação com câmera de vídeo e televisor onde o participante é convidado a falar de si olhando para 
sua própria imagem. Experimentação do falar e do ver. Dispositivo de multiplicação de si. Pode ser que 
nada aconteça. Programa experimental de diminuição e multiplicação de si. Numa multiplicidade, se 
instalarmos um único elemento diferenciador, já teremos o suficiente para mudar todo o arranjo dos 
planos que a compõe. Disponível em: < http://mil971.wordpress.com/video-instalacao/
O Fale Consigo conduzirá o campo de pesquisa sobre o estágio do espelho, narcisismo, rosto, retrato e 

auto-retrato; na pintura, fotografia, cinema e video. 
20 Atualmente este dispositivo não está sendo utilizado, não incluso na clínica; disponível apenas para 

trabalhos com não-pacientes. 


motor de experimentação21, e tanto os dispositivos como os programas são construídos a 

partir dos propósitos que se tenha em cada caso ou, como diriam esses autores, é preciso 

saber com que intensidades pretende-se povoar um corpo sem órgãos22 . 

Todo mundo pode ser um terepeuta a partir do momento em que diminui a si mesmo, 

em que sai do caminho; em que fica ao lado... O analista-imperceptível funciona como 

um duplo; o paciente utiliza o corpo dele enquanto repara suas próprias máquinas dese


jantes. Por isso desejamos a prudência como arte das doses. Porque clínica em parte tem 

a ver com cuidado e receptividade. Porque é preciso que uma análise siga o seu próprio 

caminho. Porque não se faz esse tipo de mutação com pancadas de martelo. 

* * * 

"Restaurar um ser humano na corrente da vida significa não só injetar-
lhe autoconfiança, mas também uma grande fé nos processos da vida. 
(...) Se suas raízes estão na corrente da vida, ele flutuará na superfície 
como um lotus e florecerá e dará frutos. Extrairá o seu alimento de cima 
e de baixo; lançará suas raízes para baixo e mais profundamente, não temendo 
nem as profundezas, nem as alturas. A vida que existe se manifestará 
no crescimento, e o crescimento é um processo interminável, 
eterno. Ele não terá medo de murchar, porque a decadência e a morte 
são parte do crescimento. Como semente ele começou e como semante 
ele voltará.. princípios e fins são apenas passos parciais no processo 
eterno. O processo de tudo... o caminho... o Tao". 

Henry Miller -Sexus 

21Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mil Platôs, v.3, São Paulo: Ed. 34, p. 11. 
22.Ibidem, p. 13.