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Qual a sua dor, doutor(a)? (2011)

Em São Paulo, milhares de pacientes de todos os lugares do Brasil chegam diariamente ao Hospital das Clínicas, o maior hospital público da América Latina. 

Uma complexa teia de luta pela sobrevivência humana é tecida diariamente neste hospital, onde o poder de salvar vidas se estabelece numa profunda relação entre os diversos profissionais da saúde, médicos e pacientes.

No carpe diem vivemos o campo das incertezas e do imponderável, e a dor é um elemento constituinte do ser humano no seu sentido mais amplo. O atual estado de fragmentação que se vive em nossa sociedade, transforma o corpo disciplinado, tornando-o cada vez mais obediente e útil. A urgência que se vive nos dias atuais reflete o distanciamento da compreensão do tempo, dos sistemas em rede e da teia da vida, da escuta e da sustentabilidade na comunicação. 

Como provocar a abertura dessas questões apartadas, em um cotidiano movido pela emergência da dor na iminência da morte?

Como desconstruir esses sistemas fechados que produzem desequilíbrios, sobrecargas e abusos de poder?

Como, vestidos para salvar vidas, muitas vezes esquece-se de que essas mesmas vidas vieram também carregadas de outras dimensões menos literais?

“Qual sua dor, Doutor(a)?” é uma experiência que surge para abrir os espaços que estavam fechados nesse circuito, nesse diagrama disciplinar entre instituições, médicos, outros profissionais da saúde, pacientes, familiares e funcionários. Vem para provocar fissuras nesse corpo institucional fragmentado, para que a corporalidade utilitária possa encontrar escape e resistência. 

Esses foram os pontos de partida desta experiência, que buscou traduzir a caligrafia dos médicos em caminhos para que eles pudessem se abrir e se revelar.

 

A artista transitou por um território fronteiriço, vestida com o jaleco transgredido branco e preto, numa experiência que proporcionou um hibridismo de linguagens. 

 

Do encerramento de um processo clínico no consultório com uma paciente, nasceu de uma fotógrafa performer.

Do setting psicanalítico surgiu uma intervenção pública performática e participativa nos corredores do hospital.

O médico que sempre interferiu na dor dos pacientes foi então, reposicionado, passando agora a olhar a sua própria dor.

 

O acontecimento era uma espécie de restauração entre a fala silenciosa dos médicos inseridos no interior da instituição hospitalar, com a exposição coletiva e produtora de novos discursos na rua. Um esqueleto sustentava em sua estrutura a condição de reunir a vida com a morte. As fronteiras foram redimensionadas e a obra aconteceu.