Você tem algo a dizer? - Compartilhar de cartografias / 2009 - 2014

 

“Existe um desenho que me interessa. É formado por rugas e veias... pintas, cicatrizes e erupções que rompem a superfície da pele. Ossos que conversam com as veias... O que dizem essas inscrições?” Audrey Landell

Quando tudo é movente, vital é aprender a dançar. Dançar pelas camadas e linhas que constituem nossa trama corporal. Aqui começa não um ponto, mas a ponta de um fio que nos conduz pelas narrativas corpóreas e que parte do outro, me atravessa para então tornar a entretecer o outro. Oralidades nômades que despontam e trafegam pelas fendas e bordas das superfícies internas e externas, a contar histórias sobre quem somos e de que maneiras fomos nos formando como indivíduos no ambiente.

Nessa cultura hiperinformatizada em que habitamos, imersos num universo todo mapeado por lentes micro e macrocóspicas, parece restar-nos ainda a sede de alguma descoberta que nos solucione o mistério sobre nossas origens e nos garanta, talvez, algum sentido para o viver. Acredito, porém, que não precisamos mais de sentidos, mas de uma educação dos sentidos – certa aprendizagem sobre o manejo de nossas potências sensoriais e criativas. Precisamos, sim, de práxis artísticas (e clínico-pedagógica) que nos falem sobre como nos modelamos nos acontecimentos, produzindo corpo a partir das experiências e desenvolvendo modos de lidar com as angústias e delícias de viver intensivamente entre desejos e abismos.

Realizado em 2009, sob orientação da artista Audrey Landell, o programa Compartilhar de cartografia reuniu um grupo de pessoas – do qual tive a honra de fazer parte – interessadas em investigar os modos pelos quais este corpo pode falar sobre acontecimentos vividos e impregnados em suas dobras, veias e membranas. Nossa meta, de produzir uma “obra artística” como resultado dessas incursões pelos mapas dos tecidos, tornou-se uma bela metáfora: apaixonados pela pesquisa, nos lançamos ao exercício de captar o mover dessas linhas de vida que incessantemente criam formas a partir dos afetos, inaugurando novos territórios pelos versos e avessos do ser.

Como o corpo faz isso? E como podemos nos valer desse conhecimento para produzir algo de poético a partir do que somos? Uma poética que nascesse desta minha subjetividade machucada, de minha vulnerabilidade tão penosamente disfarçada sob comportamentos estereotipados... Que brotasse da urgência deste entranhado impulso de liberdade que, a todo momento, ameaça irromper pelos poros como um levante da carne, solapando todas as convenções e violências que reiteradamente silenciam em mim a vontade de produzir diferença e de me reinventar.

Foi a partir dessas questões que começamos a experimentar meios de disparar dizeres do corpo: dispositivos e suportes que nos ajudassem a trazer à superfície falas que se calaram em forma de cicatrizes e fissuras em nossas estruturas. Dentre os diversos recursos experimentados ao longo do projeto, estão aqui expostos os desdobramentos artísticos obtidos a partir dos dispositivos Suporte-se e Fale consigo. Outras experiências vividas no processo – envolvendo escrita, trabalhos vocais, costuras em tecidos entre outros – e que também fizeram parte do percurso criativo, embora não tenham desembocado numa elaboração final, estão sem dúvida presentes na imantação das obras que ora ocupam estas salas”.

Bons atravessamentos!

 

Texto de Natalia Leite para a exposição de Audrey Landell Do Centro/ forma. Do interno/entorno na galeria Verve (2014) em São Paulo (SP).