Regência dos sonhos

Por maurício Santos

O que é o projeto? Quais as etapas do seu projeto?

A instalação “Regência dos Sonhos” busca colocar luz na linguagem dos sonhos / universo onírico humano e como uma bússola, norteará algumas pessoas com diferentes naturalidades, percursos, esferas sociais e atividades profissionais na experiência de narração de seus sonhos (em estúdio de gravação). Será um percurso atento as sonoridades, aos fragmentos imagéticos, a produção de imagens, pausas e histórias que atravessam a todos e cada um em que as especificidades serão reveladas imageticamente numa mitologia própria.

A primeira etapa consiste em fazer dois experimentos, com grupos heterogêneos de aproximadamente 24 pessoas ao todo, convidando diversos atores sociais com papéis antagônicos. O que sonham, por exemplo, as mulheres e homens ex-presidiários, os moradores rua, os religiosos, os juízes e promotores públicos; artistas e médicos dentre outros. Os convidados irão gravar o seu sonho em áudio individualmente num estúdio coordenados por um músico, com total liberdade de escolha de seu sonho e de como realizar a narrativa. Em grupo, depois da gravação, numa conversa mediada pela artista, eles irão compartilhar suas impressões e os seus sonhos. Será utilizada uma série de procedimentos de composição a partir das interjeições dos narradores dos sonhos criando um material sonoro com uma colagem ou simultaneidade de áudios dos sonhadores, borrando os limites das diferentes realidades.

Em seguida, se ocupará um espaço a ser definido no decorrer do projeto, em São Paulo. Uma sala espelhada e com certa opacidade no chão, teto e paredes, se tornará uma espécie de caixa, onde a trilha sonora será executada por várias caixas de som, funcionando concomitantemente com os diversos trechos das gravações, propiciando ao público uma imersão neste mundo misterioso das palavras, imagens e, sobretudo dos sons e da sonoridade das vozes. O público também terá a disposição fones de ouvido sem fio para ouvir a integra dos sonhos narrados por cada um dos convidados propiciando uma liberdade para transitar pelo espaço dentro e fora da sala. No espaço também terão almofadas, pufes, num ambiente capaz de ser experimentado em suas várias dimensões. Uma roupa confeccionada de diferentes tons de azuis, sinalizará em alguma medida os vários sonhos contados e os outros existentes. Uma versão piloto  com 12 pessoas foi realizada em 2014 e esta proposta visa ampliar esta experiência.

Porque?

Atualmente num mundo cada vez mais inundado de informação na vida cotidiana com imagens produzidas nesta camada artificial das redes sociais e da mídia no geral. Olhar e buscar uma compreensão para os processos subjetivos se tornou cada vez mais distante da grande maioria das pessoas. O universo onírico intrínseco a nossa espécie é um exemplo. Se aproximar, reconhecer e compreende-lo é de suma importância aos seres humanos, para ampliar uma concepção mais holística sobre a vida em uma perspectiva sistêmica.

Os sonhos transitam por um universo ao mesmo tempo individual e coletivo e também por um determinado espaço temporal. Com uma função autorreguladora de equilíbrio psicológico, “é através dos sonhos que fazemos a digestão dos acontecimentos do dia”, afirma Marion Rauscher Gallbach, do Instituto de Psicologia da USP e do ponto de vista neurofisiológico, existem outras funções cerebrais despertadas quando sonhamos sendo que uma das principais é a manutenção da memória. “Sonhar tanto guarda lembranças em arquivos de longa duração, quanto apaga informações não usadas”, diz Rubens Reimão, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.  A Regência dos Sonhos surge a partir de questões como: porque sonhamos, para que sonhamos como reconhecer, trabalhar e perceber as camadas de sonho, realidade e ficção. Nesta perspectiva, este projeto destaca as trajetórias existenciais, para uma compreensão da objetivação da subjetividade na construção das realidades individuais, coletivas e universais fundamentais para uma visão mais profunda do ser humano. Como guias da subjetividade, os sonhos estão em todos nós, independente do credo, classe social e cultura, foram analisados por psicólogos de diferentes tradições que reconheceram este universo onírico e interpretaram de forma diversa esta experiência humana. A Interpretação dos Sonhos (1900), de Sigmund Freud é uma das principais referências, mais de 100 anos depois de sua publicação. Nele, o autor demonstra que o sonhar é uma linguagem simbólica, pela qual se manifesta nosso inconsciente – espécie de porão da mente onde habitam fantasmas psíquicos, como conflitos não resolvidos e desejos reprimidos, que acabam governando todo o nosso comportamento. Para além da função biológica os sonhos são uma das principais chaves para o autoconhecimento humano.