Reflexões acerca da Linguagem na Daseinsanalyse

Danielle Pisani de Freitas

 

O exercício da Daseinsanalyse pressupõe linguagem, seja no trabalho clínico propriamente dito ou no âmbito de procura fenomenológica dos fundamentos ontológicos de Dasein. Mas de que modo a linguagem ocorre como linguagem na Daseinsanalyse? Certamente o processo de terapia Daseinsanalítica nos coloca num caminho onde fazemos uma experiência peculiar da linguagem. Mas qual é o modo de linguagem mais fértil para o encontro terapêutico? Segundo Guto Pompéia[1], seria através da linguagem da poiesis que pacientes e terapeutas procuram pela verdade que liberta para a dedicação ao sentido. Como, entretanto, reconhecer, compreender, aproximar e experimentar a linguagem da poiesis acontecendo na terapia? De que modo esta linguagem se dá? O que este modo de linguagem tem de peculiar que, sendo o caminho do encontro terapêutico, torna possível aos pacientes a apropriação e dedicação ao sentido que orienta o exercício de sua liberdade existencial?  

Com o propósito de aproximar o modo como a linguagem da poiesis acontece na terapia Daseinsanalítica, proponho primeiramente recordar e refletir sobre algumas definições de linguagem, bem como sobre experiências cotidianas onde a linguagem mesma pode nos aparecer como fenômeno. Em seguida, buscarei aproximar de que modo, segundo Heidegger, a linguagem faz parte da estrutura ontológica de nosso existir (abertura de Dasein). Acredito que depois deste percurso estaremos mais preparados para, então, descobrir o que há de peculiar na linguagem da poiesis que a torna um terreno fértil e próprio para o tipo de procura que o trabalho de terapia Daseinsanalítica propõe.

Acho importante lembrar que toda esta reflexão terá como ponto de partida, como pano de fundo e como projeto de procura, o fenômeno mesmo da linguagem no acontecer do processo terapêutico da Daseinsanalyse. Portanto, em toda e qualquer parte deste caminho, deixarei esta questão fundamental aparecer, na medida em que estiver fazendo parte da minha aproximação deste fenômeno.

 

  1. Linguagem em compreensões cotidianas

 

O homem é aquele que fala. Em sonho, acordado, quando ouvimos, lemos, contemplamos ao nosso redor, fazemos algo ou não fazemos nada. [2] Quando perguntamos para alguém se sabe o que é linguagem, muito provavelmente obteremos a resposta afirmativa. Todos nós temos alguma referência cotidiana acerca da linguagem, o que nos dá a impressão de que a linguagem é algo tão familiar, que certamente podemos reconhecê-la assim que aparece para nós. Entretanto, nem sempre temos de pronto uma caracterização da linguagem, uma explicitação verbal que a abarque.

Por hora, proponho um mergulho no modo de pensar mais comum do nosso tempo, onde a linguagem é reconhecida como a habilidade que nos permite realizar todo tipo de comportamento linguístico, como falar, ouvir, ler, compreender o significado de signos e enunciados em nossa língua materna, bem como em outras línguas que nos dispusermos a aprender. Costumamos considerar a linguagem como uma habilidade humana que nos instrumenta para a expressão, para a comunicação, para a representação e para a explicitação do pensamento, do real e do irreal. Já aqui, podemos apontar para uma diferença fundamental entre o pensamento de Heidegger e o vigente na tradição: para Heidegger a linguagem não é mais uma “habilidade” nossa, mas sim a “condição” e a “morada” mesma do nosso existir. “A essência do homem repousa na linguagem.”[3] Existimos como linguagem, na linguagem. É esse modo de existir na linguagem que nos caracteriza como propriamente humanos (Dasein).  Voltarei a este pensamento no decorrer deste trabalho. Refletirei agora sobre o modo cotidiano como costumamos pensar sobre o fenômeno da linguagem. 

É comum dizermos que a linguagem é ferramenta para expressão. De alguma forma, falar em expressão pressupõe um tornar manifesto “fora” algo que antes estaria dentro? Mas pergunto-me, dentro de onde? Dentro de nós mesmos? Sim, tendemos a pensar no homem como um sujeito que tem um âmbito interno e um externo, alma e corpo. Pensando nestes moldes, através da linguagem conseguiríamos externar conteúdos que antes estariam nas profundezas de nossa subjetividade. Acontece que ao pensarmos a existência humana como sujeito, tendemos a nos esquecer de que somos entes incompletos (estruturados, inclusive, a partir desta incompletude), que durante a vida inteira nos ocupamos em vir-a-ser aquela história que estamos sendo. Surge então a questão: como poderíamos pensar o fenômeno da “expressão” considerando a nossa existência como Dasein, ser-aí, já fora de si mesmo, lançado à sua frente com a tarefa obrigatória de ter que ser? Heidegger afirma[4], que através da linguagem, falando, Dasein se expressa, não por estar antes encapsulado num interno, mas porque, como ser-no-mundo, compreendendo, ele já está fora, aí, afinado no mundo. Dasein se expressa existindo como poder-ser jogado.

Outra conquista que costumamos considerar viabilizada pela linguagem é a Comunicação. É através da linguagem que podemos compartilhar com os outros como estamos vendo as coisas ao nosso redor, explicitar o que estamos pensando, como compreendemos determinado assunto, como nos sentimos enquanto experimentamos nosso existir. Também podemos comunicar a respeito dos fatos vividos ou não vividos, bem como sobre o futuro provável ou improvável, desejado ou temido. Podemos comunicar regras, argumentos lógicos, juízos de valor, pensamentos abstratos e matérias afins. Conseguimos, via linguagem, mostrar coisas que não aparecem na concretude do mundo material, que não precisam ser visíveis nem tangíveis, mas que podem aparecer no mundo compartilhado se alguém assim nos comunica. Pensando na perspectiva da Daseinsanalyse, a possibilidade de comunicação poderia ser encarada como um modo de realização ôntica da nossa condição ontológica de ser-no-mundo com os outros.

A palavra linguagem provém do latim língua.  Costumamos conceber as línguas como sistemas complexos de símbolos organizados numa estrutura gramatical que viabiliza a comunicação entre nós humanos. Mas de que modo nos relacionamos com este sistema de símbolos? De fato, quando lemos um texto, quando escutamos alguém falar ou quando nós mesmos nos pronunciamos, usamos séries de signos organizados de uma tal maneira que o seu significado se deixa aparecer. Compreendemos os significados daquelas palavras; compreendemos o sentido daqueles enunciados. Porém, ainda que saibamos que a linguagem é composta de signos peculiarmente combinados, quando nos encontramos com ela mesma (linguagem), raramente nos saltam primeiro os símbolos – costumamos, de início, compreender o significado do dito. Aqueles símbolos são aparentemente ignorados quando a “coisa”, a que eles se referem, se mostra para nós. Por outro lado, é inegável o fato de que, frequentemente, são imprescindíveis os signos linguísticos como a ponte entre o homem e aquilo a que o dito se refere. A palavra, como signo, é porta-voz da coisa mesma que fala aos homens.

Através da linguagem, a verdade pode aparecer. Entretanto, não é a comprovação através dos sentidos que determina que aquilo que aparece na fala é mesmo verdade. Mesmo quando estamos distantes fisicamente de algo, impossibilitados de um contato via órgãos do sentido bem como de uma checagem técnico-científica, podemos nos encontrar com situações distantes (cronológica ou espacialmente) que aparecem para nós de modo verdadeiramente próximo através da linguagem. As verdades que se revelam na linguagem não necessariamente se configuram como realidade mensurável e verificável, mas nem por isso deixam de ser verdades legítimas.

Mas de que modo conceber a verdade? Esta é uma questão com a qual a filosofia se debruça desde a Grécia Antiga, sem chegar a um consenso a seu respeito. Também a psicologia tem nesta questão o cerne de muitas das divergências entre as abordagens que a fundamentam. Não trago neste texto a explicitação destas diferenças, mas me proponho a pensar na questão da verdade tal como nós daseinsanalistas a compreendemos, orientados pelo pensamento fenomenológico de Martin Heidegger e pela reflexão de Guto Pompéia acerca das implicações deste pensamento na prática clínica da Daseinsanalyse.

Quando Guto Pompéia pensa a terapia Daseinsnalítica como a “pro-cura, via linguagem da poiesis, pela verdade que liberta para a dedicação ao sentido”, certamente tem em vista uma peculiar compreensão da linguagem da terapia (como poiesis), bem como da verdade que procuramos (a que liberta). A linguagem da Daseinsanalyse é então aquela que revela, desencobre, liberta certas verdades que podem nos libertar para a dedicação ao sentido mais próprio do nosso existir. Mas de que modo essa verdade procurada através da linguagem da poiesis na terapia, se diferencia da verdade procurada pela linguagem do conhecimento, das ciências em geral?

Retomarei esta questão mais adiante, quando estiver focando especialmente a reflexão acerca da linguagem da poiesis na procura das verdades significativas para o processo terapêutico da Daseinsanalyse. Por hora, adianto apenas a observação de que a verdade almejada pelo pensamento metafísico (veritas) é construída através de métodos lógico-racionais, dedutivos ou indutivos; enquanto aquela verdade procurada na terapia (aletheia) é revelada na linguagem da poiesis e reconhecida no instante mesmo em que se revela. Cada uma destas formas de verdade exige um modo específico de linguagem que as deixe aparecer. Se as verdades como veritas podem ser encontradas através de argumentos logico-racionais explicativos, verdades cuja natureza é aletheia só conseguem se revelar mostrando seu sabor através da linguagem da poiesis[5]. Verdades como aletheia se mostram de repente, e são saboreadas com tanta intensidade que o próprio sabor da experiência traz a certeza de que a verdade é clara e legítima, ainda que envolta em escuridão e mistério.

Conhecimentos sobre linguagem podem ser proporcionados pela linguística, pela filosofia da linguagem, ou por investigações científicas das línguas. Entretanto, aproximar o modo de ser do fenômeno mesmo da linguagem é tarefa que não se realiza através do conhecimento científico, mas através da própria experiência da linguagem.

 

  1. Experiência da linguagem.

 

Segundo Heidegger[6], no texto A caminho da linguagem, fazer a experiência de alguma coisa significa estar a caminho num caminho onde a coisa possa ser alcançada. Ao mesmo tempo, diz ser necessário que aquilo que pretendemos alcançar também nos alcance, nos comova, nos venha ao encontro e nos transforme enquanto nos mostra o seu sentido. Devemos então nos perguntar: de que modo a linguagem vem ao nosso encontro, de que modo a linguagem nos toca e nos transforma?

 Heidegger diz que assim que encontramos o mundo, encontramos também a linguagem.... A linguagem pertence, em todo o caso, à vizinhança mais próxima do humano.[7] Através da fenomenologia pudemos aprender que, de início e na maioria das vezes, aquilo que está mais perto de nós acaba sendo mais difícil de ser aproximado. Falar nos é natural. Tão natural e familiar que dificilmente nos damos conta da nossa relação com a linguagem, do fundamento da nossa experiência com a linguagem. Certamente este fato dificulta ainda mais a tarefa que me aventuro percorrer aqui neste texto, a de compartilhar via linguagem escrita o modo como a linguagem mesma é experimentada em situações propriamente terapêuticas. Como podemos “trazer a linguagem como linguagem para a linguagem”?[8]

Segundo Heidegger, para acessarmos a linguagem como linguagem, precisamos nos colocar num caminho onde somos tocados pela linguagem mesma. Pergunto-me então de que modo, como e quando somos tocados pela linguagem?  Quando a linguagem parece faltar? Quando a palavra sobra e não diz? Quando o que diz são as entrelinhas? Quando o silêncio é fértil e faz sentido? Quando as obras de arte nos falam sem palavras? Quando os fenômenos do mundo cotidiano começam a conversar com a gente? Quando a palavra mostra via poiesis o familiar que encontra a surpresa?

Penso que podemos ser tocados pela linguagem em situações em que a própria linguagem parece faltar. Quando aquilo que pede voz não parece caber na linguagem, a própria linguagem tem a chance aparecer como questão.  Lembro-me de um pensamento muito presente em minha adolescência que pode servir como exemplo de uma aproximação da linguagem a partir da impressão de sua falta. Era comum eu refletir sobre a dificuldade e a possível impossibilidade de dar forma àquilo que eu pressentia que era a “verdade fundamental” da minha existência. Como se o meu existir não coubesse em nada que eu conhecesse como contorno. O que podia aparecer na forma de palavra, som, imagem ou gesto parecia muito aquém daquilo que eu suspeitava que em mim calava fundo como verdade. Eu não havia me encontrado com a linguagem de modo que ela pudesse me dar um acolhimento que ao mesmo tempo escutasse o que calava fundo e deixasse falar o meu existir. Na época eu não tinha a menor ideia do que pensava Heidegger sobre o lugar da linguagem na existência humana, mas era extremamente tocada pela angustiante impressão de que faltava a mim a linguagem capaz de dar forma às minhas verdades. (Talvez lá já brotasse a semente que deu origem a esta reflexão de hoje.) Nesta experiência que relato, ainda que a partir de sua falta, a linguagem parecia estar se apresentando: era a possibilidade de morada que faltava.

Experiências como esta, onde a linguagem se revela como falta, podem nos aproximar da pergunta acerca da linguagem como linguagem. Mostram que somos ligados à linguagem de modo tão radical que nos angustia a possibilidade de tal insuficiência do dizer. Também poderia a partir desta experiência surgir a pergunta sobre qual seria o modo de linguagem mais favorável para a existência humana se mostrar de modo mais fiel ao seu ser, deixando aberta a possibilidade de apropriação do sentido que orienta seu si-mesmo.

 Por vezes a questão sobre a linguagem pode aparecer em momentos onde o sentido do dito se perde. Também podemos ser tocados pela linguagem quando esta deixa de fazer sentido. No cotidiano experimentamos uma linguagem que parece falar, falar, sempre de modo coerente, fazendo aparentemente sentido para todos aqueles capazes de compreender aquela língua. Não costumamos parar para pensar o significado das palavras que falamos, muito menos nos questionamos sobre o sentido do seu uso naquele contexto particular em que elas se apresentam. Desde que aprendemos a falar, simplesmente falamos, espontaneamente falamos, falar faz sentido desde muito cedo. Entretanto, nem sempre a linguagem nos presenteia com a articulação de sentido.

Naturalmente o sentido do que se diz pode ficar inacessível por conta do mero desconhecimento e da não familiaridade com a língua que se ouve. Este modo de não acesso ao sentido pode surgir, por exemplo, a partir de experiências de viagens para países onde não falamos a língua natal - situações de encontros com pessoas que falam línguas estrangeiras nunca antes escutadas ou muito pouco conhecidas.  Em contextos como estes, a linguagem verbal deixa de se remeter aos seus significados consensuais e passa a ser predominantemente sonoridade com significados imprecisos e nebulosos para o ouvinte ignorante. Talvez a incapacidade de compreensão de uma língua possa até ser um terreno fértil para brotar a questão acerca da experiência da linguagem.

Frente à impotência de compreensão automática da língua, podemos ficar instigados a nos perguntar sobre o fundamento mesmo da linguagem que torna possíveis tantas línguas faladas por humanos. Pode também surgir a impressão de que mesmo sem a compreensão do significado das palavras, seria possível algum outro modo de compreensão. Ainda que o significado preciso do dito escape, podemos ser tocados pelo que parece dizer a entonação da fala, pelo clima afetivo que os sons pronunciados geram e pelos gestos que os acompanham. A possibilidade de um vago esboço de sentido, apesar do desconhecimento do significado da língua, pode mostrar que a experiência da linguagem transcende aquilo que os signos de dicionário podem alcançar e traduzir.  

O sentido da linguagem pode faltar quando desconhecemos o idioma que está sendo falado, mas também pode faltar quando o conhecimento da língua é extenso e fluente. Quem já não foi ouvinte ou orador de algum discurso recheado de belas sentenças, rico vocabulário, brilhantes considerações que, de repente, se mostram sem sentido? Como se a fala pudesse, à revelia de nossa vontade, se distanciar do fenômeno mesmo do qual se fala e se tornar inócua, estéril, incapaz de mostrar as conexões que a fundamentam, incapaz de fazer sentido. Nos perguntamos, “onde mesmo que eu queria chegar falando isso?”, “Como fulano fala tanto sem dizer nada?” Como poderíamos pensar sobre a linguagem em situações como estas? Em experiências assim, nos damos conta de que a perfeita organização dos signos em estruturas gramaticais adequadas à transmissão de significados não garante o livre acesso ao sentido do dito.  Como compreender o poder das palavras na linguagem, sabendo sobre a possibilidade de o enunciado correto e coerente como indicação formal não garantir a compreensão daquilo a que o dito se refere?  

Por outro lado, podemos ser profundamente tocados pela linguagem em seu dizer que faz sentido, mas não se vale de palavras para tanto. O dizer de uma pintura, de uma fotografia ou de uma escultura, pode conversar conosco através das imagens que revela. A imagem diz de um modo silencioso, mas pode dar voz a verdades indizíveis por meio do verbo. O gesto contido nas obras de arte é também grávido de sentido e terreno fértil para o nascimento de verdades significativas tanto para o artista, quanto para aquele que a contempla.  Quando compreendemos o dizer silencioso de uma obra de arte, podemos nos dar conta de que a linguagem não diz apenas por meio das palavras. Arte é também linguagem, fala aos homens. Mas então, qual seria a matéria prima da linguagem, se o próprio silêncio é capaz de falar aos homens?

Seria então a imagem dos fenômenos o elemento mais fundamental à linguagem? Penso que não, pois, se fosse assim, o que diríamos sobre a linguagem musical? A música não precisa conter palavras nem imagens para conversar com a gente. O dizer musical é pura combinação ordenada de som e silêncio - sem palavras nem imagens, mas um terreno também extremamente fértil para a comunicação de emoções que fazem sentido. Todos que já foram tocados de alguma forma pelo dizer musical não têm como negar que a música fala enquanto ressoa em quem a escuta. Tenho a impressão de que a sonoridade musical tem a eloquência ideal para certos dizeres em que as tonalidades afetivas são condições necessárias para a sua compreensibilidade. A força da dramaticidade do enredo de uma ópera de Verdi não poderia ser plenamente acessada sem sua música. Escutando “chorinhos” de Pixinguinha, podemos compreender como podem ser diversas e significativas as nuances do chorar – cada choro fala, conversando de um jeito peculiar. São dizeres chorados que podem fazer muito sentido, sendo compreendidos sem a necessidade de imagens ou palavras que os explicitem. Mas o que a experiência de compreensão da linguagem musical pode nos dizer sobre aquilo que é essencial à linguagem como linguagem? Seria o fundamento da linguagem a possibilidade de fazer sentido? Seria a linguagem uma possível morada do sentido?            

Outra maneira de sermos tocados pela linguagem no cotidiano se dá através da linguagem poética. Ao ler um poema, ao escutar poesias declamadas em forma de canção, frequentemente temos a convicção de que aquele sentido revelado poeticamente de modo preciso e súbito precisaria de centenas de páginas explicativas para buscar acessá-lo, correndo sérios riscos de fracasso. Parece-me que até mesmo o próprio Heidegger, filósofo já reconhecido em seu tempo, sentiu a necessidade de recorrer à linguagem poética para nos revelar, de modo mais significativo e contundente, muito daquilo que sua vasta obra inicial tentava mostrar através de rigorosos argumentos filosóficos. A linguagem poética dispensa a argumentação lógica e é inclusive incompatível com ela. A explicação de uma piada necessariamente a priva de sua graça. A explicação de um poema pode enriquecer as possibilidades de sua interpretação, mas é no encontro com o poema, ele mesmo, que se doa a verdade surpreendente que ele contém. O dito da poesia costuma surgir das entrelinhas, e ditos assim, silenciosos, por vezes dizem mais do que certas explicitações verbais. Quando dizeres poéticos nos tocam, podemos nos dar conta de que uma experiência significativa com a linguagem ocorre quando a palavra nos acessa de modo tão acolhedor e familiar que é capaz de nos surpreender e emocionar pelo vigor do encontro súbito com o sentido libertado pelo dito.

Trago aqui um poema musicado de Chico Buarque no qual aparece com vigor o modo como o próprio Chico, poeta, é tocado pela linguagem em forma de palavra. Penso que o dito aqui nos aproxima do fenômeno mesmo que estamos tentando aproximar – a experiência da linguagem.  A canção “Uma Palavra” diz assim:      

“Palavra prima

Uma palavra só, a crua palavra

Que quer dizer

Tudo

Anterior ao entendimento, palavra

 

Palavra viva

Palavra com temperatura, palavra

Que se produz

Muda

Feita de luz mais que de vento, palavra

 

Palavra dócil

Palavra d'agua pra qualquer moldura

Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa

Qualquer feição de se manter palavra

 

Palavra minha

Matéria, minha criatura, palavra

Que me conduz

Mudo

E que me escreve desatento, palavra

 

Talvez à noite

Quase-palavra que um de nós murmura

Que ela mistura as letras que eu invento

Outras pronúncias do prazer, palavra

 

Palavra boa

Não de fazer literatura, palavra

Mas de habitar

Fundo

O coração do pensamento, palavra

 

 

  1. Abertura de Dasein (LIBERDADE) e a linguagem

 

Tentarei agora um caminho ôntico-ontológico que talvez nos mostre com mais nitidez esta nossa proximidade com a linguagem. Entretanto, antes de entrar na questão da linguagem propriamente dita, penso serem necessárias algumas considerações acerca do modo de compreensão da existência humana que fundamenta a Daseinsanalyse.

A Daseinsanalyse compreende o existir humano como Dasein. “Sein” em alemão significa “ser”, enquanto “Da” pode ser traduzido como “aí”. Existimos como seres aí, sempre à frente de nós mesmos, vivendo o dia-a-dia cotidiano nos apoiando no aí possível e indeterminado do que ainda não é, do que supomos que pode, ou não, estar por vir.  O fundamento do nosso existir é esta abertura onde tudo que foi, tudo que está sendo e tudo que está por vir aparece compreendido, numa certa disposição afetiva, a partir deste horizonte do aí possível, indeterminável e em constante movimento.

Aquilo que vem do futuro possível ao nosso encontro, cai no presente facticamente constituído sobre o fundo do possível, e tem a possibilidade de ser acolhido como história legitimada, deixando o terreno fértil para a chegada de novas possibilidades vindas do futuro. É neste círculo virtuoso do que Dasein realiza seu existir e se dedica a participar do vir-a-ser da história que ele mesmo é, sendo.

Tudo que aparece na abertura de Dasein, aparece sobre um fundo do possível. É a partir deste contraste com o possível transitório que compreendemos de modo afinado os significados de tudo aquilo que vem ao nosso encontro no interior do mundo.  O acesso a este universo do possível que caracteriza o nosso existir é a linguagem.

Segundo Heidegger no parágrafo 34 de Ser e Tempo, o fenômeno da linguagem teria suas raízes na constituição ontológica da abertura de Dasein. Heidegger afirma que o fundamento ontológico-existencial da linguagem é o discurso, e que o discurso é constituinte da abertura de Dasein com igual originariedade que a compreensão e a afinação. Somos uma abertura temporal, compreensiva e afinada, articulada como discurso. Ao que pode ser articulado já no discurso, Heidegger dá o nome de sentido. A linguagem é o ser-expresso do discurso[9].

 

  1. Linguagem e discurso (fala, escuta e silêncio)

 

Tudo que se mostra a nós no decorrer de nossa existência chega, a cada vez, num certo clima, colorido de um certo jeito, afinado em certas disposições afetivas - stimmung. Através destas “disposições afetivas” o mundo vem ao nosso encontro, a cada vez, numa certa compreensão. Acontece que a compreensão se dá em Da-sein a partir de seu modo se ser adiantado em relação a si mesmo, compreendendo mundo a partir do que ainda não é, a partir daquilo que é apenas possibilidade. Este modo afetivamente disposto de compreender mundo é articulado em nossa clareira como discurso. Somente sendo discurso, podemos articular o possível que não-é-mais ou não-é-ainda com aquilo que efetivamente se mostra numa determinada afinação, construindo assim o nosso existir como história.

Porque existimos como história, portanto a partir do nosso ser-discurso, o tempo pode aparecer, não como uma sequência de instantes desconexos, mas como um movimento que faz sentido. Tempo em nós é temporalidade. Dasein é o lugar aberto, livre, onde Ser se revela em movimento no tempo, e através do qual ganhamos o abrigo do mundo, habitando na linguagem. É através da linguagem que temos acesso a estas instâncias temporais, que não têm a consistência das coisas materiais, mas constituem a natureza mais própria do humano.

É a linguagem que nos permite habitar o não-ser. É a linguagem que nos permite morar no possível.  Tudo que compreendemos do mundo vem ao nosso encontro através da linguagem. O acesso ao nosso próprio poder-ser parece já sempre se dar através da linguagem, que permite deixar visível aquilo que ainda-não-é.

Segundo Heidegger, a articulação discursiva peculiar aos humanos abrange, necessariamente, as possibilidades da fala, da escuta e do silêncio. O silêncio pode ser a possibilidade de acolhimento daquilo que cala fundo, nos toca fundo demais para aparecer no mundo como sonoridade imediata. O silêncio pode ser ontologicamente compreendido também como a possibilidade de experimentarmos nosso ser aberto como clareira vazia, como pura possibilidade de ser um lugar onde mundo pode se dar como linguagem e a partir de onde podemos nos escutar como fenômenos vindo-a-ser a história que nós mesmos somos.

Gilberto Safra parece compartilhar do pensamento de Heidegger quando, em uma entrevista sobre o silêncio, afirma que “o silêncio é a oportunidade do indivíduo se desvestir, para poder, de fato, estar numa situação tal e que ele é pura posição. Para mim é muito claro que não há possibilidade de um gesto realmente significativo ou de um pensamento que de fato tenha um porte, que não brote de áreas experienciais silenciosas. ... O silêncio possibilita ao ser humano ter (ser[10]) um estado de abertura e de fecundidade, que é um lugar.” [11] 

Somente a partir da fecundidade de nosso fundo silencioso podemos escutar a fala do mundo, a fala dos outros, a fala dos fenômenos em geral que conversam com Dasein.  Os fenômenos do mundo não precisam se mostrar em palavras para falarem ao Dasein. Uma vez que compreendemos mundo já de modo discursivo, escutamos tudo que tem a possibilidade de falar conosco, ainda que silenciosamente. Nos é aberta a possibilidade de escutar o que dizem as paisagens da natureza e as construções humanas, escutar o que falam silenciosamente as obras de arte e os gestos sem palavras.

Em Dasein, pode ser revelado o sentido de ser dos fenômenos que nos falam, o movimento mesmo de vir a ser daquilo que está sendo. Para Dasein, em sua abertura, mundo se dá como fenômeno, como aquilo que se mostra em si mesmo[12], a cada vez, segundo o modo de acesso a ele, bem como segundo o seu modo de vir ao encontro. Nosso acesso aos fenômenos do mundo, incluindo o nosso próprio existir, é possibilitado por nossa abertura articulada como discurso.

 Escutando o movimento dos fenômenos que vem ao nosso encontro e o realizar-se de nosso próprio existir, podemos deixar aparecer o sentido que orienta nossa existência.  Neste sentido, o ouvir tem a possibilidade de constituir o nosso estar aberto para um poder-ser mais próprio. Ouvimos porque compreendemos.

Também sobre o fundo do silêncio inerente ao nosso ser-clareira, a articulação do sentido pode se dar como fala nossa. Através da possibilidade discursiva da fala, podemos responder à fala do mundo, realizando obras e participando dos fenômenos de modo a permitir que estes apareçam e façam sentido também no mundo compartilhado. Os fenômenos que nos falam e os dos quais falamos tornam-se visíveis através das possibilidades abertas por nosso ser-discurso. “O falar não é ao mesmo tempo, mas antes uma escuta”[13] Falar é também escutar o que se deixa mostrar.

No caso da Daseinsanalyse, o fenômeno que fala é o do existir de cada paciente em particular. O modo de acesso a este fenômeno seria a linguagem da poiesis. Poiesis em grego significa fazer. A Daseinsanalyse se realiza na linguagem da poiesis, num fazer que procura verdades peculiares ao mundo de cada paciente, verdades que podem aparecer quando são postas-em-obra na obra que vai se constituindo através das falas que talham cada sessão de terapia. O fazer poiesis da Daseinsanalyse tem um compromisso com o sentido de ser do modo de articulação do discurso próprio de cada paciente.

 

  1. Linguagem e mundo

 

Heidegger afirma no texto A Linguagem que tão logo um homem faça uma ideia do que se acha ao seu redor, ele encontra imediatamente também a linguagem[14]. A linguagem é, neste sentido, a nossa possibilidade de ser em, é a morada da existência humana. Nós humanos não nos encontramos no mundo assim como outros entes da natureza. Nosso ser-em um mundo não é uma condição espacial tal qual aquela que os outros entes da natureza ocupam. Nossa possibilidade de ocupar um lugar no mundo não se restringe à possibilidade física de ocupação do contorno mensurável de nossos corpos num continente que seria o mundo. Quando dizemos que somos seres-no-mundo, certamente reconhecemos que, enquanto temos corpo, ocupamos um espaço. Entretanto, ser-em no caso dos humanos implica em ser um lugar onde mundo se mostra. Nosso modo peculiar de ser lugar permite que estejamos próximos a pessoas, coisas e lugares que estão fisicamente longe. Podemos estar próximos a fatos da história que já passaram ou a projetos futuros que só existem como possibilidade, mas que podem estar perto do nosso existir através da linguagem. Como somos discurso, habitando na linguagem, espaço para Dasein é espacialidade.

Diferentemente das coisas da natureza que sempre ocupam um espaço fisicamente delimitado, Dasein só consegue ser abarcado como lugar corpóreo (corporeidade) num mundo existencialmente concebido. Mundo é continente para Dasein apenas quando se revela como rede de significados que fazem sentido. Mundo torna-se, então, a possibilidade de acolhimento do movimento de realização da história de cada Dasein em especial, do lugar em que ele agora está sendo-no-mundo.  Pensando assim, quando concebemos, a partir de Ser e Tempo, a condição ontológica de Dasein como ser-no-mundo, e mundo como contexto de significados[15], a linguagem já se mostra como morada e como constituinte do nosso existir.

 

  1. Linguagem e liberdade

 

Em Seminários de Zollikon, Heidegger nos mostra que, como Dasein, somos uma clareira[16], um lugar onde o mundo fala para nós - como mundo - sempre a partir de um fundo do possível, do aberto, da nossa condição mesma de liberdade. Nas palavras de Heidegger, “O que o existir como Da-sein significa é um manter aberto de um âmbito de poder-apreender as significações daquilo que aparece e que se lhe fala a partir de sua clareira. (p.33) .... Ser aberto significa clareira (p.41) ... O através do qual algo aparece e se mostra à sua maneira, é o aberto, o livre. Neste aberto encontramo-nos e estamos, mas de modo diferente da mesa. ... O aberto, o livre, o que transparece através de, não está no espacial; mas, ao contrário, o espacial é que está no aberto e no livre. (p.37)”      

Segundo Heidegger, o fundamento deste lugar aberto (clareira), que somos nós, é a liberdade. Diferentemente dos outros entes do interior do mundo, não somos essencialmente determinados por redes causais que obedecem os princípios da natureza. O que determina o ser de Dasein não tem consistência de causa pois não se encontra nas contingências dadas no passado. O que determina o ser de Dasein é o modo como o futuro possível se apresenta no livre aberto de seu ser-clareira. Aquilo que ainda-não-é fala a Dasein como possibilidade que faz sentido; e assim, confere significado a tudo aquilo que vem ao seu encontro. O que fundamenta nosso existir no mundo é a liberdade: a possibilidade de não ser determinado por aquilo que já começou, mas de ser um início que se gesta e atua a partir do possível indeterminável.[17]  

Todos os significados do mundo são o que são, a partir de contextos de possibilidades que vêm ao encontro de Dasein. A morada de Dasein é mundo; e mundo é morada enquanto linguagem propriamente humana. É a linguagem que nos joga no mundo próprio dos homens possibilitando-nos um abrigo no possível. O mundo próprio dos homens é fundado no possível indeterminável, na liberdade de Dasein. E o acesso a este mundo, que nos é próprio, nos é possibilitado através do nosso existir como linguagem.

A partir desta reflexão, pergunto-me sobre os diferentes modos de linguagem e sobre a peculiaridade que a linguagem na Daseinsanalyse teria que ter para aproximar a existência de cada paciente, sabendo que esta abarca tanto o possível-livre que não-é, quanto a transitoriedade do realizar-se como história, que não-é-mais, mas costura seu modo de ser. A linguagem que pretende aproximar Dasein de sua própria existência precisaria abarcar ser e não-ser, realidade e possibilidade. Penso que talvez seja esta a peculiaridade da linguagem da poiesis, aquela que a torna fértil para o trabalho da Daseinsanalyse. Através da poiesis, abre-se a possibilidade de deixar que apareça, ou não, o sentido do movimento mesmo do fundar da liberdade de cada paciente.  

“Poeticamente o homem habita”, diz Heidegger citando um poema de Hölderlin. Podemos morar na linguagem da poiesis uma vez que esta é capaz de nos acolher, acolhendo, simultaneamente, aquilo que não-é e o seu movimento de vir-a-ser (o sentido do nosso existir) A linguagem da poiesis abarca a passagem da obscuridade à claridade, do silêncio à ressonância. A linguagem da poiesis nos abriga na medida em que a realizamos - encontramos morada na poiesis mediante um construir[18]. Dito de outra maneira, enquanto estamos falando via poiesis, o próprio movimento de vir-a-ser do sentido na linguagem, nos abriga como morada. O pôr-se em obra da linguagem da poiesis deixa aparecer o sentido que nos orienta e abriga enquanto realizamos o nosso existir fundado no possível. 

 

  1. Daseinsanalyse e linguagem

 

Após este breve mergulho ôntico-ontológico em busca da compreensão da articulação íntima entre o humano e a linguagem, proponho agora que nos coloquemos no caminho da experiência mesma da linguagem na Daseinsanalyse clínica. De que modo somos tocados pela linguagem nas situações em que o fazer da Daseinsanalyse acontece efetivamente? Como é que somos tocados pelo vigor da linguagem na terapia? Como a linguagem nos toca como pacientes? Como a linguagem nos toca como terapeutas? Como a linguagem toca o existir de alguém que se apropriou do compromisso de ser Daseinsanalista?  Penso que a linguagem é, para a Daseinsanalyse, a condição e o caminho mesmo de seu realizar-se.

A linguagem se configura como condição da Daseinsanalyse uma vez que, assim como todos os humanos, tanto terapeuta quanto paciente existem como Daseins, são articulados como discurso e moram na linguagem. Constituídos como discurso, podemos através da linguagem deixar que apareça de modo compartilhado nossa história, à luz do possível que ainda não é, mas que orienta e funda nosso existir. Morar na linguagem é condição necessária fundamental aos pacientes e terapeutas que se propõe a realizar juntos o processo da Daseinsanalyse.

 Uma vez que guardo reflexões tanto como paciente quanto como terapeuta Daseinsanalista, coloco-me como protagonista destas duas experiências ônticas, na tentativa de explicitar de que modo o morar na linguagem se mostra como condição ontológica para o processo da Daseinsanalyse.

 Morando na linguagem, como pacientes temos a possibilidade de dizer ao terapeuta sobre nosso mundo. Podemos hoje, contar dos fatos de nossa história passada, recordando o significado que estes fatos tinham no passado, bem como descobrindo o modo como estas experiências se integram no sentido da história que estamos agora sendo. Como moramos na linguagem, podemos compartilhar as lembranças daquilo que foi e do que não foi, mas talvez pudesse ter sido; compartilhar as possibilidades de futuro que julgamos prováveis ou improváveis, desejadas ou temidas; compartilhar o modo como estamos vindo-a-ser história enquanto cuidamos do nosso existir. Como moramos na linguagem podemos trazer na presença do terapeuta fenômenos que não se apresentam concretamente, mas que tendo a consistência de não-ser, sustentam o sentido que orienta nosso existir. A Daseinsanalyse pode ser uma oportunidade para que nossa fala, como pacientes, deixe aparecer o sentido de ser do modo como estamos sendo. Este sentido pode se dar e se revelar compartilhado através do dizer dos silêncios e dos sons, dos gestos e das obras, do conversar e do brincar que se realizam nas sessões de terapia. Falando assim, como pacientes, temos a chance (mesmo que involuntária) de descobrir verdades significativas acerca do nosso modo de vir-a-ser. A partir destas descobertas, podemos então nos comprometer, a cada vez, com essas verdades acerca de nós mesmos, nos dedicando ao sentido que elas apontam, cuidando com mais zelo do nosso existir.

Para que a Daseinsanalyse se configure como esta oportunidade para os pacientes, nós terapeutas, morando na linguagem, precisamos considerar que todas as falas de nossos pacientes nos contam sobre o modo peculiar como eles estão vindo-a-ser-no-mundo.  Como moramos na linguagem, através dela nos é dada a possibilidade de nos aproximar dos fenômenos que constituem o mundo de nossos pacientes sempre que estes aparecem nas sessões. Como moramos na linguagem, podemos juntos, contemplar fatos que se realizaram na vida do paciente bem como possibilidades que não se efetivaram; podemos contemplar o modo como o futuro, compreendido como possível pelo paciente, se apresenta transformando os antigos significados do passado; podemos contemplar o modo como o presente lhe é dado e o modo como está respondendo a ele. Como moramos na linguagem, podemos acessar aquilo que não existe na concretude dos fatos da vida de nossos pacientes, mas que aparecem como fenômenos significativos sobre o fundo do possível peculiar ao seu mundo e ao sentido próprio do vir-a-ser de sua história. Se não morássemos na linguagem, o que chamamos aqui de sentido nem sequer existiria. Quando os pacientes nos contam do seu mundo através de falas e silêncios, gestos ou obras, tenho a impressão de que podemos procurar junto com eles, e quem sabe com sorte, testemunhar o nascimento de verdades que aproximam o paciente do sentido de seu próprio modo de existir, do modo afinado como compreende e articula como discurso, a cada vez, aquilo que vem ao seu encontro. Sem a possibilidade de morarmos na linguagem, a Daseinsanalyse não teria como se realizar.

A linguagem é condição da Daseinsanalyse, mas é também o próprio caminho onde ela efetivamente se realiza. No processo da Daseinsanalyse, através da linguagem, nos colocamos a caminho da linguagem que teria a possibilidade de nos tocar, nos revelar e nos transformar.  Na Daseinsanalyse, tanto paciente quanto terapeuta falam. Paciente fala, enquanto silencia os dizeres cotidianos impessoais, enquanto procura escutar aquilo que se mostra a flor da pele pedindo para ser dito, enquanto procura um dizer que dê voz às verdades que libertam o sentido norteador de seu modo de ser-no-mundo. Terapeuta fala, escutando aquilo que o paciente diz, deixando-se tocar pelo dito de modo que este consiga aparecer como fenômeno compartilhado. Através do que escuta o paciente de seu próprio dizer e através daquilo que o terapeuta diz, o sentido procurado pode ser revelado, reaproximado e reconhecido pelo paciente.  

Um outro modo de aproximar a linguagem como o caminho mesmo da Daseinsanalyse poderia ser a partir da explicitação de condições mais facticamente constituintes do processo clínico, as quais, em Dasein, não poderiam deixar de aparecer sobre o fundo do possível. Refletirei então sobre o processo da Daseinsanalyse, usando como exemplo e ponto de partida, o tempo de sessão, um aspecto do contorno cotidiano que configura alguns limites e possibilidades deste caminho.

Costumamos atender nossos pacientes, a princípio, em sessões semanais de uma hora. As sessões têm um começo e um fim determinados cronologicamente, mas entre estes dois marcos há somente uma abertura livre, silenciosamente fértil para acolher o movimento de vir-a-ser da fala de cada paciente sobre si-mesmo. Enquanto o paciente fala, ao mesmo tempo em que aparecem em relevo os fatos sobre os quais ele fala, também aparece o sendo mesmo deste falar, o modo como o paciente vai encontrando para se encontrar com os fenômenos do seu existir, enquanto se encontra com seu terapeuta naquela hora previamente combinada.

Assim como acontece quando realizamos uma obra, realizando a conversa que se versa na terapia, o paciente tem a possibilidade de enxergar, ou não, o movimento próprio de realização de si mesmo. A realização de si mesmo se mostra através das obras que realizamos, dos discursos que articulamos e que nos articulam, das palavras que dizemos e que nos escrevem. Penso que a Daseinsanalyse é uma oportunidade de o paciente, durante cada sessão e no decorrer do processo como um todo, pôr-se-em-obra na obra feita de linguagem que é tecida em conjunto na terapia. Tramando junto com seu terapeuta dizeres sobre o seu existir, o paciente se coloca a caminho de aproximar verdades que sejam significativas e libertadoras, verdades concomitantemente familiares e inaugurais, verdades que o libertem para a dedicação ao sentido de seu existir. Nesse sentido a Daseinsanalyse é posta em obra através da linguagem da poiesis, linguagem onde a verdade e o sentido podem se revelar a partir do movimento mesmo de sua execução.

Quando o terapeuta Daseinsanalista pro-cura, em cada sessão, pelo sentido que sustenta o movimento de vir-a-ser na fala de seus pacientes, a radicalidade da condição de liberdade do paciente tem a chance de aparecer. Ainda que o sentido do dito não esteja claro, tudo que o paciente fala se configura como gesto que se efetiva de determinada maneira, e não de outra. Aquilo que se realiza em terapia aparece sempre como uma fala que se dá sobre um fundo do possível que não se deu. Toda fala de Dasein tem como fundamento o constante vir-a-ser de nossa abertura como compreensão afinada, articulada, sempre e a cada vez, como discurso. O paciente é livre para falar o que quiser, e o terapeuta se dispõe a acolher e a levar a sério tudo aquilo que o paciente fala, atentando ao movimento mesmo do seu dizer, bem como para o sentido que ele aponta. Não acho que exista para a Daseinsanalyse uma hierarquia de assuntos mais, ou menos, terapêuticos ou relevantes. Todo dizer do paciente deve ser compreendido pelo Daseinsanalista como um modo de vir-a-ser daquela existência em particular, a partir de um fundo do silêncio possível. O dizer é sempre um gesto através do qual os homens podem se realizar como abertura de liberdade, apesar de sua constituição como fáticos seres jogados no mundo, encarregados de ser aqueles que são. 

Assim como em todas as outras situações de nosso existir como humanos, também no processo da Daseinsanalyse, somos fadados a ter de ser quem somos, realizando nosso existir enquanto exercemos nossa condição de abertura livre. Penso que a diferença do momento mesmo da terapia Daseinsanalítica, em relação a outros momentos cotidianos, seja o fato de que temos no Daseinsanalista um ouvinte atento à procura do modo e do sentido do movimento mesmo do exercício da liberdade de cada paciente. Aberto à escuta do modo como seus pacientes estão vindo-a-ser durante cada sessão, o Daseinsanalista considera seriamente a possibilidade de aparecer uma fala capaz de revelar uma verdade inaugural acerca do existir do paciente. Uma verdade que o faça lembrar de que sua existência não se encerra nos fatos que viveu. Uma verdade que o devolva à certeza de sua incompletude e liberdade, da obrigatoriedade de cuidar de seu existir, de se realizar como humano, como obra, como história, até o fim.  Como Daseinsanalistas, teríamos que, em cada sessão, nos dispor a lembrar que a história de cada Dasein (incluindo nós mesmos) é constantemente articulada discursivamente - é composta a partir daquilo que nos chega do futuro, mas realizada em liberdade, através de cada gesto nosso que nasce e a partir de cada gesto nosso que está por nascer.   

Verdades que trazem a certeza desta lembrança não são verdades encontradas por caminhos lógicos e científicos, não são passiveis de teste ou comprovação.  Verdades assim, simplesmente irrompem do encobrimento em aletheia. Talvez sejam essas, as verdades que Guto Pompéia afirma serem procuradas em terapia. Verdades propriamente humanas. Verdades do inefável - dos sonhos e das possibilidades de futuro, das tonalidades afetivas e dos significados transitórios e arejados da história de cada Dasein que aparece em nossos consultórios.

Certamente o aparecimento de verdades desta natureza não acontecem necessariamente a cada sessão, mesmo porque, não há como prever esse acontecimento. Desencobrimentos como aletheia não são garantidos metodologicamente e também não são fruto da nossa vontade. Mas, se essa é a natureza de aletheia, como compreender o propósito do fazer do Daseinsanalista e de seu paciente em uma sessão de terapia? Como nos orientamos para a tarefa de pro-curar pela verdade que liberta o paciente singular para a dedicação ao sentido do seu existir?

Parafraseando Heidegger em um contexto filosófico[19]: talvez nos reste apenas a possibilidade de preparar no pensamento e na poesia uma disponibilidade para a aparição ou para a ausência[20] de verdades inaugurais que devolvem ao paciente a certeza de ser singular e livre.  Não podemos controlar sua aparição, mas podemos preparar nossa disponibilidade para encontrá-las.  Pensamento e poesia talvez sejam gestos que abrem o vazio necessário para que as verdades possam aparecer em liberdade na clareira singular que é cada Dasein. Pensando enquanto realizamos via poiesis o encontro terapêutico, nos dispomos numa espera atenta, que não atropela o processo com significados prévios, mas que é permeável ao que aparece, e livre para compreender e gestar aquilo que vem ao nosso encontro. Talhando cada encontro terapêutico via poiesis, estaríamos como terapeutas preparando uma disponibilidade para a espera e para o possível acolhimento das verdades que libertam o sentido da existência singular de cada paciente.

Penso que o foco da Daseinsanalyse talvez seja prioritariamente o caminho mesmo de procura da verdade – o fazer que se realiza na linguagem da poiesis, aquela que prepara o terreno para acolher o nascimento de gestos que tenham o vigor para dizer.  O foco seria mais o cuidado em preparar o caminho e menos a pretensão de encontrar a verdade. O vigor do dizer que surge como surpresa, se dá a partir do caminho mesmo de articulação das falas e dos gestos na terapia. De repente, aquela articulação que vai sendo configurada na sessão salta à nossa compreensão e parece falar com a gente. Acho que é aí que a sessão vira obra. Obra tecida pelo paciente e pelo terapeuta. Obra com autonomia de dizer do mundo do paciente sem precisar de tradução ou explicação.

Para que a linguagem da terapia possa ser fértil assim, o falar na terapia não pode ser o preenchimento desesperado do vazio dos minutos da sessão. Também não pode ser o preenchimento já antecipado pela fala do ninguém. Para tanto, as falas dos pacientes e terapeutas teriam que brotar de uma experiência de silêncio, que deixa de lado as vozes do ninguém para deixar aparecer o vigor da palavra propriamente humana daquele Dasein singular. A fala que tem o vigor do dizer surge do silêncio, do mistério do que ainda não se falou ou do que não se deixa falar. É neste rasgo que faz a passagem do não dito ao dito que se mostra o vigor da linguagem. A linguagem da terapia teria que acolher as nuances desta passagem, abrindo o espaço para o aparecimento do sentido apontado nesta “rasgadura”[21], no abismo do poder-ser que articula o discurso encoberto e o livre da linguagem (o que se mostra). A linguagem da terapia é aquela que procura deixar que apareça o sentido do movimento mesmo da passagem do não-ser ao vir-a-ser das verdades que se libertam em aletheia.

Falando assim, podemos ter a impressão de que o nascimento da verdade como aletheia seria sempre vivido como bem-vindo pelo paciente. Entretanto, não é sempre que isso acontece. A verdade liberta quando nasce, mas também exige de nós um empenho na direção do movimento de apropriação disso que se inaugura. Quando estas verdades plenas de sentido se mostram, podem abalar o modo como estávamos acostumados a compreender o mundo. Aquilo que antes compreendíamos como mundo pode ter os seus antigos significados abalados, abalando assim o horizonte do nosso existir como um todo. Nossa abertura, compreensão afinada articulada discursivamente, aparece na transitoriedade do movimento mesmo de articulação discursiva daquilo que vem ao encontro.    Momentos onde a transitoriedade do sentido se impõe, podem vir permeados de angústia ou graça[22]. Angústia, quando experimentamos o desamparo da possibilidade do não abrigo no sentido. Graça, quando o sentido se dá involuntariamente, mas aparece sobre um fundo do possível desabrigo do não sentido, oferecendo gratuitamente a linguagem como morada. Afinações fundamentais como estas podem favorecer nossa proximidade junto ao movimento mesmo de vir-a-ser do nosso existir como Dasein, fundando mundo enquanto habita na linguagem.

Em meio à comoção junto ao movimento do nosso vir-a-ser, podemos nos apropriar da história que estamos sendo. História que se configura a partir de cada gesto nosso que se inicia. História que nos configura como genuinamente humanos até que a morte nos chegue. Início e finitude se revelam simultaneamente enquanto nos apropriamos do movimento do nosso existir. Iniciando, nos apropriamos da tarefa inexorável de respondermos por nós mesmos, cuidando de ser quem estamos sendo. Sabendo-nos finitos, acolhemos nossa indigência e nos deixamos fecundar pelas restrições impostas pelo mundo. Assim, até o fim, podemos nos apropriar, a cada vez, do vir-a-ser de nossa história singular, continuando a ser terra fértil[23] para o nascimento de novos gestos, gerados por novos sonhos.

Como Daseins, podemos nos apropriar do nosso existir enquanto nos co-movemos com o realizar-se de nós mesmos como começo, como aquele que pode ser pela primeira vez dito, por obra de sua própria palavra.  Quando esta comoção acontece em terapia, o sentido apontado pelo futuro é iluminado, liberando significados renovados da nossa história passada, guardando o vigor do dizer que se configura como um novo início quando se mostra em aletheia. Como pacientes, podemos assim nos sentir participando do sentido do movimento de realização de nossa própria existência. Podemos nos apropriar do sentido do movimento de articulação da nossa própria compreensão-afinada como discurso. É participando do sentido do gesto que realiza nosso existir que nos sentimos propriamente em casa, como propriamente humanos. A linguagem dá acesso a existência e abriga aquilo que não é, abriga o inefável fundamento que sustenta o existir humano. A linguagem abriga o sentido do ser de cada Dasein singular. Como terapeutas Daseinsanalistas, versando junto com os pacientes em cada sessão, nos dispomos numa espera aberta e atenta para a aparição, ou não, da fala como morada do sentido próprio do existir do paciente.

Tenho a convicção de que a Daseinsanalyse é uma conversa. Paciente versando com seu terapeuta. Terapeuta versando também, na procura das verdades como aletheia, que devolvem ao paciente a possibilidade de morar no sentido do seu existir mais próprio.  São dois Daseins vindo-a-ser. Um dizendo do mundo a partir do seu lugar, paciente na espera do aparecimento da verdade do modo como está compreendendo de maneira afinada sua história, o futuro possível e o presente que, durante a sessão, oferece o silêncio para que soe o discurso mais vigoroso possível.  O outro numa disponibilidade de escuta, de início silenciosa, mas genuinamente disposta a se aproximar, através da linguagem, do mundo de seu paciente, do sentido que sustenta o constante vir-a-ser de sua existência articulada como discurso. Versando juntos, paciente e terapeuta procuram, enquanto aguardam o brotar de verdades que a partir do vigor da linguagem chegam a aparecer, envoltas no mistério do que se resguarda impronunciado. 

           

 

 

[1] Pompéia, Uma caracterização da terapia, Revista ABD

[2] Heidegger, A  Linguagem, em  A caminho da linguagem, p. 7

[3] Heidegger, O caminho da Linguagem, em A Caminho da linguagem (2012), p.191, ed. Vozes

[4] Ibid, p. ......

[5] Vale lembrar aqui que linguagem vem do latim língua. Na definição do dicionário Michaellis, língua: 1 Anat ... órgão principal da deglutição, do gosto e, no homem, da articulação das palavras. 2 Idioma, linguagem, fala.   3 Estilo. 4 Expressão. 5Sistema de sinais apropriados a uma notação.

[6] Heidegger, A essência da Linguagem, em A caminho da linguagem, p. 137

[7] ibid.

[8] Heidegger, O caminho para a linguagem, A caminho da Linguagem, p. 192

[9] Ibid.

[10] Alteração do texto de Safra que o tornaria ainda mais consonante com o pensamento de Heidegger.

[11] Safra, Gilberto, em entrevista transcrita no livro Sobre o Silêncio, de Andréa Bomfim Perdigão, p. 113

[12] Heidegger, Ser e Tempo, par. 7

[13] Heidegger, O caminho para a linguagem, em A caminho da linguagem, p. 203

[14] Heidegger, A linguagem, em A caminho da Linguagem, p.7

[15] Heidegger, Ser e Tempo, par. 18

[16] Heidegger, Seminários de Zollikon, desde o 1º seminário (8 de setembro de 1959)

[17] Pompéia, João Augusto, “Entre o fim e o começo – Daseinsanalyse e Hannah Arendt”, palestra proferida em dezembro de 2011.

[18] Heidegger, “...poeticamente o homem habita...”, em Ensaios e Conferências, p.167

[19] Contexto diferente do nosso, comprometido com a terapia Daseinsanalítica.

[20] Trecho de Heidegger em entrevista à Der Spiegel (set 1966), se referindo a impotência da filosofia em produzir tecnicamente uma ação que transforme o estado presente de mundo.

[21] Heidegger usa esta expressão no texto O caminho para a Linguagem

[22] Guto Pompéia descreve as diferentes compreensões do termo “graça” em seu texto “Alguns fundamentos”.

[23] O termo “terra fértil” - húmus (raiz etimológica de homem) – é usado por Guto Pompéia em vários de seus textos para aproximar o movimento ontológico que nos constitui como Dasein.