Trajetória na Arte

A produção de Audrey Landell, iniciada em 1990, explora trabalhos interativos e relacionais que unem a arte e a vida em concepções que transgridem os suportes tradicionais, no sentido de construir novos agenciamentos para as obras de arte, com a colaboração e a participação do público.

No início, as obras da artista plasmavam imagens que se aproximavam de uma figuração onírica, próxima do movimento surrealista. Depois, a série Híbridos e Casais, realizada entre 2006 e 2010, revelou, além de uma dimensão tradicional contemplativa, uma dimensão sensorial da tridimensionalidade, com estruturas construídas para serem manipuladas pelo público, abrindo o espaço relacional na escultura.

Na instalação Umaeum, realizada pela artista em 2009, um grupo de pessoas do bairro Sumaré foi convidado a participar da ação, carimbando as linhas e as digitais de suas mãos em diversos papéis. Uma costura – feita sobre três painéis de madeira, cobre e acetato – articulou todos esses desenhos.

Em 2007, Audrey concebeu Oralidade Nômade: primeiro programa experimental* de mapeamento das linhas do corpo e de elementos do seu entorno, como espaços urbanos e fluviais, criando um dispositivo cartográfico que foi vivenciado durante oito meses pela historiadora e ceramista Roseli Cunha. Desse processo resultou a série Fotografismo.

No trabalho Suporte-se e Fale consigo, realizado em 2008, o espectador – então transformado em participante – foi convidado a descobrir-se como forma na experimentação e como matéria-prima e conteúdo da obra.

Em 2009, Audrey convidou um grupo de sete pessoas – a jornalista Natália Leter, o músico e produtor Wilson Sá Brito, o psicanalista e artista visual Rafael Adaime, a psicóloga e educadora Virginia Walton,  o educador e filósofo Rodrigo Mauad, a terapeuta corporal e bailarina Bárbara Lobato e a arquiteta e artista plástica Cristina Abud – para que elas pesquisassem os incômodos que sentiam a partir do corpo. No processo foram propostos alguns dispositivos, como desenhos de contornos do corpo, moldes em gesso das partes do corpo afetadas, vídeo autorretrato, sons dos incômodos, entrevistas com o grupo, fotografias de marcas da pele e maquetes do corpo-instalação. Uma roupa relacional foi concebida como novo programa experimental. Com ganchos e elásticos costurados na região das principais articulações do corpo de uma pessoa enquanto ela vestia essa roupa – chamada Protótipo –, as outras pessoas puxavam os elásticos ao redor dela com o intuito de provocar o movimento das partes com o todo. 

A instalação Pintura, feita com cubos de madeira, espelhos e pinturas a óleo sobre cilindros, permitiu que as pinturas surgissem pela projeção de imagens de vários planos multiplicados pelo reflexo dos espelhos. A proposição desse trabalho é trazer para dentro o que está fora, integrar o reflexo do ambiente como parte da obra. A obra convida o espectador a descobrir-se nessa relação, amalgamando-se com o seu entorno.

Na performance Caderno de Exposição, realizada em 2010, o espectador foi chamado a criar, de forma livre e coletiva, vestindo a roupa e recebendo a grafia das pessoas no corpo e se movendo pelo ambiente como uma espécie de performer. O trabalho se propôs a incorporar a criatividade do espectador-participante ao dar a ele o suporte para que se expressasse e a possibilidade de também se transformar em propositor da obra.

Em 2011, após passar um período na Europa, Audrey retornou ao Brasil e se concentrou na realização da série Ancestrais, composta de pinturas de imagens de sementes e de galáxias em cubos de madeira e de cobre. Nesse mesmo ano, a artista desenvolveu a série Dentro, que consistiu em fazer experimentos envolvendo fotografias do seu próprio rosto inseridas em cubos de vidro com água. Ainda em 2011, ela apresentou pela primeira vez a intervenção artística Qual a sua dor, doutor(a)?, realizada em parceria com a fotógrafa Leda Lucas, no V Congresso Interdisciplinar de Dor da USP.

Dividido em dois atos, o projeto/programa/intervenção urbana/performance Escrita e Leitura, que fazia parte da intervenção artística Qual a sua dor, doutor(a)?, possibilitou que, no primeiro ato, o performer fosse um espaço aberto em trânsito entre os leitos, disponibilizado para receber e carregar, por meio da escrita sobre as dores dos médicos e das médicas, os diversos incômodos que os atravessavam, pelos corredores do hospital. No segundo ato, os frequentadores do hospital – os próprios médicos, visitantes, familiares, funcionários, fornecedores, pacientes – se aproximaram por meio da leitura das dores daqueles que ocupam o lugar dos que tentam salvar a vida dos pacientes. A estrutura que sustentava as memórias das fragilidades dos médicos e das médicas pertence a uma dimensão que está além da vida. É a dimensão do esqueleto morto em pé, vestido com o jaleco e exposto no espaço urbano como intervenção artística. Esse trabalho aconteceu semanalmente, durante dois anos, em parceria com a fotógrafa Leda Lucas, pelos corredores do Hospital das Clínicas e do Incor – Instituto do Coração, em São Paulo (SP). Também foi apresentado por Audrey, em 2016, no Simpósio Multidisciplinar de Meta-autoria, realizado em Paris e coordenado pelo doutor e livre-docente em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Artur Matuck. O trabalho desdobrou-se em duas novas instalações – Estetoslupa e Radiografia da Alma –, concebidas por Audrey e expostas na galeria Verve, em São Paulo, em 2014.

Em 2012, o projeto 36 Toques resgatou da realidade virtual e atemporal uma experiência de intimidade afetiva e poética. O projeto reuniu mensagens trocadas via SMS entre Audrey e o seu namorado, o jornalista e editor Alberto Marsicano Guedes, durante um ano. O objeto não estava mais fora do corpo, mas era o próprio corpo da intimidade. Um livro objeto com a edição das mensagens foi impresso em 2012 pela editora Tron Comunicação, em São Paulo (SP), e lançado durante a exposição 4x4+1 Força de Atração, realizada no espaço cultural do SESC Casa do Comércio, em Salvador (BA), no segundo semestre daquele ano. Além de Audrey, participaram da exposição os artistas Israel Kislansky, Janete Kislansky, Júlio Alves e Ademir Bacelar. Durante a exposição, enquanto uma pessoa vestia a roupa e lia fragmentos aleatórios dos SMSs, outra escolhia regiões do corpo dessa pessoa e escrevia o que escutava.

Em 2013 e 2014, Audrey fez trabalhos de performance, pintura, carimbo, molde do corpo e colagem de fotografias, como SudárioSuporte-se Casal e Eu e Vc., Verso e Reverso, que deram sequência à obra Compartilhar de Cartografias, iniciada em 2009. Nesses trabalhos, a artista utilizou novamente o conceito de programa experimental, para disparar no outro – nesse caso, o seu marido – a problemática que o conduziria à experiência da suportabilidade da conjugalidade. A obra, Eu e Vc., Verso e Reverso, por exemplo, é formada por três instalações, duas delas com diversas fotografias de partes de rostos e corpos, tiradas durante um ano por Audrey e pelo seu marido Alberto. Com base nessas partes, foi criada uma cartografia híbrida. A terceira instalação é formado por pregos  e fios prateados sobre trama de acetato.

Em 2014, Audrey convidou um grupo de 12 sonhadores para gravarem suas histórias oníricas em estúdio e, em parceria com o músico Fabio Katz, editou as vozes dos áudios e compôs uma trilha sonora que fez parte de uma instalação apresentada na galeria Verve, no bairro de Pinheiros, em São Paulo (SP). No mesmo ano, em parceria com o psicanalista e artista visual Rafael Adaime, a artista criou o projeto Suporte-se e Fale Consigo, aberto ao público, que aconteceu na galeria Verve, em 2015.  

Em 2015, Audrey convidou um grupo de oito mulheres em situação de violência doméstica para participar de um projeto criado por ela, no Centro de Referência à Mulher – Casa Eliane de Grammont, na capital paulista. Contornos dos corpos das mulheres e frases escritas por elas em papel foram as matérias-primas para a criação de duas ações. Uma com recortes em stencil; a outra, uma instalação de 14x2m, em acetato translúcido, chamada Onde está sua voz?  e Eu disse não!. Essa obra foi apresentada em 2016, na defensoria Pública de São Paulo, e em 2018, na Secretaria da Justiça  de São Paulo e na exposição Invisibilidade Emergentes, no Instituto Miani .

Em 2016, a série Almofálicas e a instalação Noiva Morta foram as novas produções da artista. Na série Almofálicas, tecidos de algodão costurados uns nos outros e com preenchimento em fibras de poliéster, sobrepostos com telas de arame e alfinetes, criaram a cena de um ambiente agradável e convidativo, misturado ao estranhamento das passagens cortantes dos metais. A instalação Noiva Morta foi realizada durante o processo de encerramento do seu casamento – feita com tela de arame sobre o molde do rosto do marido, com acabamento em  fibra de vidro com fio de cobre, tule e flores de tecido.

Em 2018 concebeu as obras/instalações: Incubadora Rosa, Cápsulas de Reconexão, Coletivo de Umbigos 1 e 2 e Circuitos Abertos e Internos.

 

Alguns trabalhos – como UmaeumRegência dos SonhosSuporte-se e Fale ConsigoQual a sua dor, doutor(a)?Pintura, Eu e Vc., Verso e Reverso, Suporte-se Casal e Circuitos – foram concebidos na fronteira entre arte e clínica, constituindo-se em programas experimentais em que alguns pacientes, durante ou no final dos seus processos de análise, foram convidados a participar das obras. Outros aconteceram na urgência de uma sensibilidade visceral da artista, em atender à sua necessidade de trazer para a vida a arte e para a arte a ética.

A trajetória de Audrey Landell não pode ser vista de uma forma linear. Seus trabalhos se misturam o tempo todo, como uma teia em que os fios se conectam, atravessam por diagonais e túneis no tempo. São  proposições  rizomáticas híbridas, cartográficos e atemporais.

*Os programas experimentais são construídos com base em uma escuta atenta, realizada pela artista como psicocriaadora. O processo de criação com o outro passa a ser a proposição que articula procedimentos e experimentações, fundamentando-se em proposições que sejam adequados a cada caso.